Mulheres em Home Office: Jornada Tripla?


Quando falamos de jornada, sabemos que é o trajeto que se percorre num dia. Jornada de trabalho seria então, o período durante o qual o trabalhador está à disposição da empresa. Mas e quando esse trabalhador é do gênero feminino e começa a fazer esse percurso no formato home office, onde suas funções passam a ser em sua residência? Como gerenciar o trabalho e suas tarefas enquanto dona de casa, onde na maior parte das vezes não possui nenhum auxílio?

Já sabemos que a ‘’igualdade’’ frente ao vírus é uma ficção, visto que a doença não atinge a todos e todas da mesma forma e com a mesma intensidade. Estamos diante de uma crise repentina que assola os serviços de saúde, o sistema educacional, a saúde física e mental, a economia, a convivência familiar, as relações e condições de trabalho, as relações afetivas, a divisão sexual do trabalho, a liberdade, o deslocamento, o modo de vida e, sobretudo, as subjetividades.

Vivemos em uma sociedade patriarcalista, agravada pelo racismo estrutural, privilégio de classe, de moradia, onde nossos corpos e nossas subjetividade são violentadas diariamente. A maneira com que o governo aborda o todo que se refere a esse público corrobora para disseminação de práticas violentas, a exaltação do tradicionalismo e superioridade masculina, tomando corpo aqueles que são adeptos a tais concepções.

Percebemos mulheres sobrecarregadas com a dinâmica familiar nuclear, estruturada conforme o patriarcado, implicando no trabalho doméstico e de cuidado ininterrupto e pouco compartilhado, e no outro extremo, mulheres que estão passando a pandemia na solidão, sem ou com rede de apoio limitada. A noção de cuidado é tabuizada na forma feminina, onde é ensinado desde criança, seja através de brincadeiras ou diante da necessidade de aprender este ofício para suprir as demandas dos irmãos mais novos, se aperfeiçoa, introjeta-se em nossa estrutura subjetiva, se reproduz, se mercantiliza, sempre nos condicionando às expectativas sociais ao ponto de naturalizar-se e então, nos oprimir. Todos nós precisamos de cuidado e devemos cuidar!

O vírus não quebrou estruturas sociais, mas as intensificou, mostrando com maior nitidez o quão desiguais e opressoras elas podem ser. A casa se tornou um lugar inóspito para essa mulher em face do aumento da violência de gênero. No Brasil, em março de 2020, início da medida protetiva de isolamento, imposta pela pandemia, as denúncias recebidas no Disque 180 cresceu 40% em relação ao mesmo período do ano de 2019, segundo dados divulgados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH). Dados do Instituto Santos Dumont de 2020, mostraram um aumento considerável da violência doméstica no período da quarentena no Brasil, a saber: Lesão corporal +34,1%; Ameaças +54,3%; Estupros +100 % e Feminicídios cresceram 300%.

Na última quinzena de março, 7 milhões de mulheres abandonaram seus empregos, a pandemia também tirou 10 anos de avanços no mercado de trabalho. Somando-se a isso, cerca de 70% das profissionais de saúde são também mulheres. Essa situação ainda se agrava pela condição econômica das mulheres, que continuam ganhando em média 25% a menos que os homens. A questão que se amplia significativamente no caso das mulheres negras, que formam grande parte das trabalhadoras informais, em condições precárias de trabalho, sem acesso a registros, e que na pandemia têm perdido a vaga de emprego.

Percebemos então, que a mulher teve sua qualidade de vida afetada pela pandemia, não podendo exercer suas funções de trabalho na empresa, sendo convocada a assumir inúmeros papéis em home office. Buscando enfrentar esse isolamento e ressignificar seus sentimentos, as mulheres estão atravessando esse ano com a saúde mental e física comprometidas, cabendo a nós, psicólogos, resgatar essa mulher suprimida, buscando sua liberdade e fortalecendo sua rede de apoio.



Isabela Costa MEMBRO CRESEX


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