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Vivências em masculinidade


Um breve relato pessoal


Ano passado, 2022, tive a oportunidade de participar pela primeira vez de um Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana. Lá estava eu, recém formado, terminando o primeiro ano da especialização em Sexologia Clínica, super animado para participar do que, para mim, talvez fosse o evento mais importante daquele dia de congresso: uma roda de conversa sobre masculinidade.


Como psicólogo, homem, cisgênero e heterossexual, aquele era o meu ambiente. Aquele era o momento de ouvir outros colegas falarem sobre suas experiências pessoais e, quem sabe, conversar um pouco sobre aquilo que eu vivia diariamente.


Entrei na sala e ela estava lotada. Os palestrantes estavam no palco, quase todas as cadeiras estavam ocupadas. Tinham até pessoas sentadas nas escadas do auditório esperando o início da apresentação. Mas, para minha surpresa, poucos rostos me eram "familiares", ou melhor, poucos rostos eram de homens.


O que significa "múltiplas masculinidades"?


Antes de tentarmos responder a pergunta "o que significa ser homem?" precisamos estabelecer alguns valores básicos, entre eles a existência de múltiplas masculinidades.


Da mesma forma que as pessoas não são iguais, a masculinidade não é igual para todos. Ser homem trans é diferente de ser homem cis, ser homem homossexual é diferente de ser homem heterossexual, ser homem negro é diferente de ser homem branco. O grande desafio de conceber múltiplas masculinidades é justamente estabelecer um diálogo entre similares (não iguais!!) sem perder o respeito às diferenças.


Precisamos estar cientes que nossas experiências como homem, apesar de parecidas, provavelmente jamais serão iguais. Durante a roda de conversa relatada no início do texto, lembro claramente do momento onde um dos palestrantes deu alguns exemplos de atividades tipicamente masculinas:


"Homem joga futebol, treina boxe e é fã do Goku."


Eu treinei boxe durante anos. Eu assisti Dragon Ball boa parte da minha infância e adolescência, apesar de ser mais fã do Gohan que do Goku. Mas não jogo futebol nem torço pra time algum. O que isso quer dizer? Que sou mais homem que alguém que não gosta de nenhuma dessas coisas? Que sou menos homem que alguém que, além do que eu gosto, também joga futebol e sabe a escalação da última copa?


Isso significa apenas que fundamento a minha masculinidade em alguns valores e não em outros e que a exerço de forma única e particular. Significa que essa é a "MINHA MASCULINIDADE", e não "A MASCULINIDADE". Ao buscar um conceito que defina uma masculinidade geral e absoluta, objetivo que talvez seja inalcançável, precisamos manter em mente que indivíduos diferentes podem fundamentar sua masculinidade em valores diferentes e que a importância destes valores pode mudar conforme o contexto.


Quer um exemplo? Em competições esportivas de alto nível, como as olimpíadas, o sexo biológico, se quisermos ser mais específicos, os níveis de testosterona durante a puberdade e o seu impacto na morfologia e desenvolvimento de caracteres sexuais secundários, tem grande importância e impacto na performance dos atletas e, consequentemente, na definição do que é ser homem ou não. Agora, será que o sexo biológico é relevante na hora de cumprimentarmos um vizinho, recebermos um colega novo no ambiente de trabalho ou simplesmente conversar com alguém no bar da esquina? Provavelmente não.


Para que o diálogo entre similares possa ocorrer precisamos que cada indivíduo, cada homem, seja capaz de exercer esta plasticidade conceitual com um mínimo de competência. Ou seja, saber que a masculinidade depende de valores que se modificam e variam conforme a pessoa, contexto e talvez até período de vida. Uma tarefa nada fácil.



Uma jornada mais que um destino.


Mais importante do que encontrar um conceito definitivo do que é "A MASCULINIDADE" talvez seja entender quais são os valores que costumam sustentar a ideia de masculinidade nos mais diversos ambientes, culturas e intimidades. São estes os valores que nos unem como homens, sejamos cis, trans, heteros, homos, brancos, negros, etc. É a nossa relação com o corpo, a nossa relação com o trabalho, nossa relação com mulheres e também com outros homens que irá fundamentar nossa experiência de masculinidade.


Costumo dizer que "parte do eu é definida no outro", quer dizer, precisamos de um outro que nos sirva de referência para estabelecermos aquilo que é nosso e aquilo que é compartilhado. Questionar estes valores, entender como eles contribuem para a experiência subjetiva de masculinidade e em que ambientes são mais ou menos relevantes é um processo sem fim.


Após escutar os palestrantes na roda de conversa mencionada no início do texto me vi em uma posição de intermediário entre: um grupo de pessoas, alguns homens outros não, com suas definições e valores próprios de masculinidade; e meus amigos, colegas de treino e conhecidos que, apesar de não terem o conhecimento técnico necessário para circular naquele ambiente, também tem seus próprios valores e definições associadas a masculinidade.


Como estabelecer um diálogo entre estes grupos? Como estabelecer um conceito definido e claro porém flexível a ponto de não ser excludente? Em que contextos essa masculinidade se mostra evidente o suficiente para ser observada e estudada?


Estas perguntas me acompanham até hoje quando vou fazer a barba, ver um filme, treinar na praça, pegar meu sobrinho no colo, escutar o que um paciente tem a me dizer e expressar o que estou sentindo ao ouvir o seu relato. Ser homem não é algo estático. Ser homem não é algo privado. Ser homem não é algo único. Muito pelo contrário, masculinidade é móvel, flexível e adaptável. É exercida nas relações com os outros e com nós mesmos. É diferente para cada homem, mas apresenta semelhanças que nos unem e aproximam.


Que coisas são essas que definem a masculinidade? Talvez isso ainda nos caiba definir.



Autor: Léo Hemann Strack

@psicologiadacoisa


Revisão e edição de Texto: Débora Carvalho

@psideboracarvalho

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